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A Rainha da Neve - Parte 4

Written by: Hans Christian Andersen

A velha senhora ficou admirada ao ver Gerda e disse: como conseguiu chegar até aqui, arrastada por essa correnteza podendo ser carregada pelo mundo sem fim. Imediatamente aproximou-se do barco e com sua bengala puxou o barco para a margem, ajudando Gerda a sair dele.
Gerda não sabia se ficava contente por ter se livrado daquela correnteza, porque lá no seu íntimo estava com medo daquela criatura tão estranha.
Levando Gerda para dentro de sua casa ela perguntou: - Como você veio parar aqui? De onde você é? A velha senhora, muito estranha parecia interessada na história de Gerda. Sem demora ela sentou-se em um pequeno banco e contou-lhe toda sua história. Uma pergunta não queria se calar: essa senhora havia visto Kay? Ele havia passado por ali? A velha disse que não, mas que certamente um dia passaria, enquanto isso Gerda deveria aproveitar do belo jardim que ela tinha, com as mais belas flores, nunca antes vistas. Dito isso trancou a porta.
A casa também era estranha: janelas muito altas, com vidraças azuis, vermelhas e amarelas. No interior da casa, por causa das cores das janelas e a luz do sol davam ao interior um efeito estranho. Sobre a mesa havia uma vasilha com cerejas muito apetitosas e Gerda pôs-se a comê-las com muito prazer. Enquanto ela saboreava as cerejas a velha começou pentear-lhe os cabelos com um pente de ouro. Gerda tinha um lindo cabelo que reluzia ao sol.
– Eu sempre quis ter uma garotinha como essa, – disse a velha. Tenho certeza que seremos muito boas amigas.
Quanto mais a velha penteava seus cabelos, mais Gerda se esquecia de Kay. Como vocês podem imaginar, na verdade ela era uma bruxa! Ela tinha poderes mágicos. Ela não era de todo má, apenas usava de seus poderes para sua felicidade e realmente queria ficar com Gerda. Assim, foi até seu jardim e com sua bengala ordenou que todas as roseiras desaparecessem. Por que ela fez isso? Por medo de que, se Gerda visse as rosas, pudesse se lembrar de Kay e querer ir embora. Ela não queria que Gerda saísse de sua casa nunca mais.
Depois disso levou Gerda para o jardim e a deixou brincando lá entre as flores imagináveis, durante todo o dia. Gerda estava feliz, brincou muito e, ao fim do dia sentiu-se cansada. A velha preparou-lhe uma cama muito macia, com cobertores de seda e enfeitado com flores. Ela adormeceu e teve lindos sonhos de rainha.
Ao amanhecer, lá estava Gerda outra vez brincando no meio das flores, mas algo estranho acontecia, ela sentia falta de alguma coisa, mas não sabia dizer o quê. Certo dia ao observar o chapéu da velha senhora que em suas abas trazia lindas flores, foi despertada para a mais bela delas: uma rosa. As rosas da terra haviam desaparecido, mas... a do chapéu ficou!
Imediatamente Gerda “acordou” : – Não há rosas aqui?
Gerda começou a correr entre os canteiros a procura de uma rosa. Não encontrou nenhuma. Muito triste, sentou-se no chão e começou a chorar. Suas lágrimas caíram na terra exatamente onde uma das roseiras havia desaparecido. Imediatamente ela brotou e lindas rosas surgiram dela. Um perfume maravilhoso exalava de cada uma das rosas, Gerda as beijou e imediatamente lembrou-se de sua casa de seu amigo Kay.
Assim Gerda se deu conto de que permaneceu ali por tempo demais. Perguntou às roseira se Kay estava morto. – Morto ele não está, estivemos nas profundezas da terra e não o vimos por lá. Gerda foi de canteiro em canteiro perguntando se as flores haviam visto Kay. As flores, mais preocupadas com elas e com suas histórias, de fato não sabiam onde Kay estava.
Gerda ouviu muitas histórias, a primeira foi do lírio tigrino. Sua história vinha da Índia e flava sobre um funeral. O canto dos tambores e o canto triste das mulheres e as chamas que consumiam o corpo. Mas a mulher indu ardia por alguém que estava vivo. As chamas eram tão intensas que atingiam seu coração. Porém, em muito pouco tempo, tudo estaria consumido inclusive seu coração que ardia por um outro. Em pouco tempo tudo seria cinza. Será que as chamas de um coração podem morrer com as chamas da fogueira?
– Não consigo entender sua história! – Pois é a que tenho respondeu o lírio!
A segunda história é a da corriola. Num pequeno atalho da montanha, pendurado em suas encostas um castelo feudal pode ser avistado. As muralhas vermelhas estão cobertas por eras. Elas subiam até um balcão onde uma bela moça olhava ao longe. Nada havia de mais belo do que essa jovem! Seu vestido de seda fazia um suave barulho. “Onde ele estará? Por que não vem?”
– Fala de Kay? – Perguntou Gerda?
–Não, falo sobre minha própria história, sobre meu sonho, –respondeu a corriola.
A terceira história é contada pelo galanto. Em um balanço duas lindas meninas com vestidos muito brancos e laços de fita no chapéu estão balançando. O irmão delas está em pé no balanço segurando em uma das mãos uma tigela e na outra um canudo com o qual faz bolas de sabão O balanço dança no seu ritmo de vai e vem enquanto as bolas voam. Um cachorrinho preto também quer fazer parte da brincadeira e fica bravo porque não pode. Late, pula... As bolas se desfazem, a corda se desprende, a tábua oscila e uma figura de espuma se desfaz – eis minha história.
Seu conto pode ser belo, mas sinto tristeza em sua voz, por outro lado não mencionou Kay.
A quarta história vem dos jacintos. Três lindas irmãs: uma de vestido vermelho, outra de azul e a outra de branco. Dançavam junto ao lago adormecido, sob a luz do luar. No ar uma deliciosa fragrância. As me ninas desapareceram na floresta. O perfume ficou mais intenso e três caixões traziam as três belas irmãs. Eles vinham da floresta em direção ao lago. Pirilampos voavam com suas lanternas coloridas. O que aconteceu às meninas? Estão mortas ou apenas dormem? O perfume da noite atesta que elas morreram, os sinais da noite cantam hinos de finados.
Fiquei muito triste. Seu perfume é muito forte e me lembra as 3 meninas. – Será que Kay morreu? As rosas que estiveram no fundo da terra dizem que não.
A quinta história. Os sinos dos pequenos jacintos começaram a tocar. Não é para Kay que tocamos, afinal não o conhecemos. Essa é a nossa canção.
Gerda foi até eles e disse: – Tão pequeno você é, sabe onde posso encontrar meu companheiro? O botão de ouro olhou para Gerda e brilhava, ele também não sabia de Kay, mas tinha uma canção.
– Em uma pequena casa inundada pelo sol da primavera via-se crescer perto de uma parede muito branca, cresciam as primeiras flores amarelas da cor do ouro. O sol aquecia com seus raios aquele quintal, aquela casa. Uma avó estava sentada em sua cadeira. Sua neta era muito bonita e trabalhava como empregada doméstica, veio visitar a avó. Deu-lhe um beijo. Seu coração bondoso resplandecia como os raios de ouro do sol e aquecia o coração da avó. Esse é meu canto, essa é minha história.
Gerda lembrou-se imediatamente de sua avó e seu coração ficou apertado de saudade e de tristeza. Ela está duplamente triste por mim e por Kay. Em breve estarei de volta e Kay estará comigo. As flores não me dizem nada.
Gerda puxou seu vestido para cima para poder correr, mas sua perna encostou em um narciso. Ela parou e olhou para aquela planta comprida e amarela.
– Você saberia dizer alguma coisa sobre Kay?
Eis a sexta história. Somente vejo a mim mesmo. Meu perfume é maravilhoso! Do alto de um telhado, uma bailarina meio vestida dançava ora numa perna, ora na outra, ora nas duas, assim atraia toda a atenção das pessoas para ela. De uma chaleira ela faz cair a água sobre um pedaço de seu corpete. Um ambiente limpo e roupas limpas são muito importantes. Seu vestido branco está pendurado em um cabide. Foi lavado na chaleira e enxugado no telhado. Ela se veste e no pescoço traz um lenço cor de ouro que faz ficar ainda mais branco o vestido. De pernas para o ar ela permanece ereta e o narciso se vê nela novamente.
História tão desinteressante!
Gerda correu para o outro lado do jardim, mas encontrou o portão fechado. Gerda estava toa aflita para sair que sacudiu o portão com tanta força e tantas vezes que a tranca acabou por ceder. Sozinha, descalça Gerda correu pelo mundo afora. Ninguém a seguiu. Por fim cansada, sentou-se numa grande pedra. Somente então percebeu que o verão tinha ido embora, que o outono já estava chegando. Isso ela não podia ver de onde ela vinha pois lá havia sol e lindas flores o ano todo.
– Estou muito atrasada! Já é outono, não posso n em descansar!
Levantou-se para continuar sua viagem.
Seus pés estavam doloridos e cansados. Já estava frio e muito úmido. As folhas dos salgueiros estavam amarelas e gotejadas pelo orvalho. Das outras árvores caiam sem parar as folhas já amarelecidas. Apenas os cedros mantinham-se firmes seus frutos não podiam ser comidos. Como tudo estava feio e sombrio!

© Todos os direitos reservados a H.C Andersen Institutte ®

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